O
nome dele era João. Batista. Não era da Silva, apenas João Batista. Tinha nome
de santo. João Batista havia nascido no interior, em uma casa de chão de terra
batida com uma janela e uma porta. Teve seis irmãos. Um morreu ao lado dele, no
berço - de fome -, mas ele dizia que Saulo preferiu ir embora pro céu, ao invés
e mandá-lo.
João
cresceu vendo o pai, doente, trabalhar no arado. Típica casa de interior: seca,
fome e sol. Mas João Batista era um sonhador. Um sonhador que nunca quis deixar
o sertão. Queria mudar a terra em que vivia. Queria chuva e gado forte. Queria
a mãe, dona Zinha, numa rede nova. Queria um riacho perto de casa. E um açude,
pra molhar os pés e escovar os dentes pela manhã.
A
infância de João não fora boa. Sem muita comida, um pai tuberculoso, uma mãe
franzina e cinco irmãos a dar trabalho. O mais velho, Paulo, adentrou pro mundo
da roubalheira desde bem pequeno. Quando em vez trazia uma galinha pro jantar.
Sua mãe nunca lhe perguntara de onde vinham as bichanas, mas João Batista
sempre desconfiou. Quando Paulo finalmente completou dezoito anos, foi preso na
cidade. Dona Zinha olhava pro deserto seco todo fim de tarde, na esperança de
sua volta. Nunca mais foi visto.
João
Batista com nome de santo queria transformar o mundo. Cresceu sem muito estudo,
pois o quadro-negro mais próximo ficava a três horas a cavalo e a dois rios
dali. Mesmo assim, adorava as letras. Dizia pra mãe que ia ser dotô. Certa
feita, João brincava no rio quando vieram avisar que o pai tinha caído na roça.
Foi uma correria e um tumulto só. O sol brilhava alto, quando a mãe, franzina,
saiu de dentro da choça e comunicou:
-
o meu Francisco se foi...
Enquanto
os irmãos se abraçavam, chorando, João ficou quieto, num canto da varanda perto
da rede. O pai amava aquela rede. Era lá que Seu Francisco ficava após a labuta diária. E foi lá que João
Batista passava todas as tardes depois do rancho durante meses após a triste e
abrupta partida do amado pai. Sentava-se no canto e ali permanecia horas a fio,
acabrunhado, pensando em como ser dotô e orgulhar o pai.
E
como tudo nessa vida passa , o tempo também passou para aquela família. Os sete
membros restantes agora se agrupavam emocionalmente , que nem passarinho no
topo da árvore em noite de lua cheia.A mãe, dona Zinha, os ossos já lhe tiravam
as forças e iam, pouco a pouco se esvaindo. A rede agora era sua morada. Da
varanda, onde o pai ficava, ela observava a lida dos meninos: tirar o leite das
cabras, arar a terra e plantar o feijão - que raramente crescia. A alimentação
naquelas bandas era basicamente um aglomerado de farinha e água. E assim, o
tempo se desvanecia, naquela imensidão de nada e sol.
Certo
dia, uma estranha apareceu na porta do casebre. Tinha bons modos e vestia um
conjunto de seda e sapatos de salto. Coisa rara por ali. Diziam que vinha da
cidade grande e procurava por mão de obra. Barata. Era dona de fazenda.
Perguntou sobre a família e a possibilidade de levar um dos meninos. Prometeu
vida boa, escola e roupas. A mãe, já doente, aceitou de pronto. Menos um a
passar minguado, disseram.
Em
uma sacola rota enfiou com os dedos finos e sem força, uma velha rede, um par
de sapatos rotos, a única camisa da missa e uma calça escura. Foi abraçado sem
lágrimas. Somente um olhar vazio e distante.
E
lá se foi João Batista com nome de santo. Coração apertado, mas feliz. Ia
finalmente estudar pra ser dotô e envaidecer o pai que tanto amara. Triste, de
certo, por deixar pra trás a família que benqueria, mas esperançoso por demais
naquele dia estranhamente nublado.
O
lugar em que moravam era distante da cidade grande. Estrada longa e tortuosa,
mas ladeada de montanhas verdinhas, contraste bruto com aquele sertão árido que
dava nó na garganta. E ali, bem naquela curva, todos os seus sonhos se
dissiparam. Um pau-de-arara antigo e em ruínas, levou pro azul do céu a
esperança, a lembrança, o menino.
João
Batista. Nome de santo. Queria ser dotô. Foi abraçado por Saulo às portas do
céu. Naquele momento veio a chuva fina, esperada por tanto tempo no agreste,
celebrando, talvez, sua partida. O açude finalmente encheu e o sertão nunca
mais fora o mesmo...