sábado, 12 de agosto de 2017

Pão da Vida



Iluminado encontro este de outrora
que trouxestes em cesta enriquecida
diante da infinita sede de amor
e da demora...

Partes ao meio tal deleite
sem recheio ou dúvida que enfeite
a alma lânguida e tranquila...

Esqueces porém necessitado recheio,
de verdades cruéis e pragmáticas,
desvendando receita enigmática,
do fel a transbordar...

Recorres a pães saborosos,
que adornam mesas perplexas
de gosto fiel a duvidar...

Repartes sem medo devido encanto,
que , sem ruelas imaginárias
ou azuis de céu em prantos,
despede-se , por hora, a desejar...

Revela-se então, pão da vida a amar:
quem nunca , dantes apreciou bem adorar?
Fazes e refazes tuas receitas, repetidas em novas mesas...
Toalhas de linho e taças de cristal,
denotam no entanto, a leveza do papel...
E como tal, voa fácil, ao vento,
adocicado de mel...

Nome de Santo


Resultado de imagem para casebre no sertão

O nome dele era João. Batista. Não era da Silva, apenas João Batista. Tinha nome de santo. João Batista havia nascido no interior, em uma casa de chão de terra batida com uma janela e uma porta. Teve seis irmãos. Um morreu ao lado dele, no berço - de fome -, mas ele dizia que Saulo preferiu ir embora pro céu, ao invés e mandá-lo.
João cresceu vendo o pai, doente, trabalhar no arado. Típica casa de interior: seca, fome e sol. Mas João Batista era um sonhador. Um sonhador que nunca quis deixar o sertão. Queria mudar a terra em que vivia. Queria chuva e gado forte. Queria a mãe, dona Zinha, numa rede nova. Queria um riacho perto de casa. E um açude, pra molhar os pés e escovar os dentes pela manhã.
A infância de João não fora boa. Sem muita comida, um pai tuberculoso, uma mãe franzina e cinco irmãos a dar trabalho. O mais velho, Paulo, adentrou pro mundo da roubalheira desde bem pequeno. Quando em vez trazia uma galinha pro jantar. Sua mãe nunca lhe perguntara de onde vinham as bichanas, mas João Batista sempre desconfiou. Quando Paulo finalmente completou dezoito anos, foi preso na cidade. Dona Zinha olhava pro deserto seco todo fim de tarde, na esperança de sua volta. Nunca mais foi visto.
João Batista com nome de santo queria transformar o mundo. Cresceu sem muito estudo, pois o quadro-negro mais próximo ficava a três horas a cavalo e a dois rios dali. Mesmo assim, adorava as letras. Dizia pra mãe que ia ser dotô. Certa feita, João brincava no rio quando vieram avisar que o pai tinha caído na roça. Foi uma correria e um tumulto só. O sol brilhava alto, quando a mãe, franzina, saiu de dentro da choça e comunicou:
- o meu Francisco se foi...
Enquanto os irmãos se abraçavam, chorando, João ficou quieto, num canto da varanda perto da rede. O pai amava aquela rede. Era lá que Seu Francisco ficava  após a labuta diária. E foi lá que João Batista passava todas as tardes depois do rancho durante meses após a triste e abrupta partida do amado pai. Sentava-se no canto e ali permanecia horas a fio, acabrunhado, pensando em como ser dotô e orgulhar o pai.
E como tudo nessa vida passa , o tempo também passou para aquela família. Os sete membros restantes agora se agrupavam emocionalmente , que nem passarinho no topo da árvore em noite de lua cheia.A mãe, dona Zinha, os ossos já lhe tiravam as forças e iam, pouco a pouco se esvaindo. A rede agora era sua morada. Da varanda, onde o pai ficava, ela observava a lida dos meninos: tirar o leite das cabras, arar a terra e plantar o feijão - que raramente crescia. A alimentação naquelas bandas era basicamente um aglomerado de farinha e água. E assim, o tempo se desvanecia, naquela imensidão de nada e sol.
Certo dia, uma estranha apareceu na porta do casebre. Tinha bons modos e vestia um conjunto de seda e sapatos de salto. Coisa rara por ali. Diziam que vinha da cidade grande e procurava por mão de obra. Barata. Era dona de fazenda. Perguntou sobre a família e a possibilidade de levar um dos meninos. Prometeu vida boa, escola e roupas. A mãe, já doente, aceitou de pronto. Menos um a passar minguado, disseram.
Em uma sacola rota enfiou com os dedos finos e sem força, uma velha rede, um par de sapatos rotos, a única camisa da missa e uma calça escura. Foi abraçado sem lágrimas. Somente um olhar vazio e distante.
E lá se foi João Batista com nome de santo. Coração apertado, mas feliz. Ia finalmente estudar pra ser dotô e envaidecer o pai que tanto amara. Triste, de certo, por deixar pra trás a família que benqueria, mas esperançoso por demais naquele dia estranhamente nublado.
O lugar em que moravam era distante da cidade grande. Estrada longa e tortuosa, mas ladeada de montanhas verdinhas, contraste bruto com aquele sertão árido que dava nó na garganta. E ali, bem naquela curva, todos os seus sonhos se dissiparam. Um pau-de-arara antigo e em ruínas, levou pro azul do céu a esperança, a lembrança, o menino.
João Batista. Nome de santo. Queria ser dotô. Foi abraçado por Saulo às portas do céu. Naquele momento veio a chuva fina, esperada por tanto tempo no agreste, celebrando, talvez, sua partida. O açude finalmente encheu e o sertão nunca mais fora o mesmo...





domingo, 9 de abril de 2017

FIM

Queria despir-me de toda a ilusão que trago em mim.
Retirar da minha alma a dor e a tristeza da solidão.
Queria relembrar somente a jornada no trem da gratidão...

Desejaria revelar meu ser impuro, repleto de doce submissão,
E conter dentro de mim somente a mansidão.
A mansidão dos retos e justos , que com Cristo estão.

Queria tanta coisa e sonho tanto,
Que nem de olhos entreabertos duvido tanto...
Sonhos infantis e pueris de outrora,
Ganham força na extrema demora da concretização...

Mas para tudo há o tal tempo e hora.
Que meu ser seja confortado  e embebido na reflexão,
De que somente quando eu vir a  flor no chão, caída no outono eu me relembre,
Que sim, há momento e nuvem que eu vislumbre,
A tal doce ilusão e sonho da infância, se faça real e se apresente...

Somente assim e assim somente, parto desta vida para outra,
Não achando força que me prenda, me conduza ou me tormente,

Mas na paz e luz que me contente...

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Mar

Queria um mar só pra mim.
Um mar de verdes águas cristalinas,
sem sentido ou coisa assim...


Queria um mar só pra mim.
Com uma ilha e um coqueiro,
e uma sombra sem fim...

Queria sentir você só pra mim.
Tê-lo em meus braços,
eterno, enfim...

Queria esse mar só pra mim.
Onde eu me escondesse da verdade assombrosa
que não permite a realidade tenebrosa
de vê-lo ao fim...

Ao fim do meu dia,
de minhas palavras e frases
ou outras coisas afins...

Queria o tal mar.
Queria sim.
Quem sabe um dia você não nada pra mim?


domingo, 25 de janeiro de 2015

No dia em que eu morri





No dia em que eu morri, lembrei-me de minha vida em um instante:
lugares que fui e me perdi;
lugares que andei como uma infante.
No dia em que eu morri, refiz minha jornada:
me vi sozinha e acabrunhada
no canto da vida em que vivi.
No dia em que eu morri, lembrei-me de muitos:
 alguns amigos, outros nem tanto,
e planos que chorei aos prantos.
No dia em que eu morri me fiz de alegre:
todos ao redor de mim choravam
e muitos outros, lamentavam.
No dia em que eu morri, sorri bastante.
Nos braços de Jesus nunca distante,
refiz meu tempo na Terra, interessante.
No dia em que eu morri, assim pensei:
fiz muito e tudo por amor
e quase sempre agradei.
No dia em que eu morri, me fiz saudosa.
De um tempo que se foi e não volta atrás.
Milhares de lágrimas chorei,
e que agora não choro mais...
No dia em que eu morri, agradeci.
Por todos na minha vida , eterneci.
Fiz de Cristo minha morada,
e , nela voltei a caminhar.
Em sua luz, feliz a festejar
por minha volta a triunfar.
No dia em que eu morri eu tive pena,
daqueles que não souberam me entender.
E para estes, deixo minha palavra final:
amei meus irmãos e não me arrependo,
cantei suas lágrimas e compreendo
que nem todos são iguais.
Uns quiseram meu amor e companhia,
outros se furtaram da alegria,
de me ver sorrindo todo o dia,
sob o céu azul e ensolarado
que o Cristo nos dá , encabulado,
para que possamos ao outro ofertar:
sem ganância, maldade ou inveja,
o que Ele queria era somente
que adentrássemos em sua igreja
para que quando partíssemos, natural fosse...
Sorrir, amar e ser amado,
sempre com a alma tranquila e abençoada,
sem marcas ou dores calejadas,
de uma vida comum embora atribulada,
mas com a leveza infantil daquele que sorri.
No dia em que eu morri,
eu, simplesmente parti...

sábado, 24 de janeiro de 2015

Pássaro Negro






Quando teus olhos cruzaram os meus,
não havia rancor nem piedade.
Havia um querer-sem-querer sem crueldade
que só meu coração entendeu...

Quando tua boca imaginária encostou na minha, 
despi-me da tal famosa sanidade
que me acompanha , ilusória,  sem maldade,
que só meu corpo acolheu...

Quando teu adeus chegou mansinho...
sem tortura, nem reflexão...
avistei o abismo em que me encontro:
voar tal pássaro negro ao teu reencontro,
custaria nada menos que teu abandono...

Quando te vi, no alto e singelo...
a voar, sem destino ou flagelo,
trouxe-me o chão, outrora verde e firme,
na figura que me afaga o coração...
tuas penas negras furtaram meu sorriso 
e me deixaram no chão em que congelo...

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Andorinha

A grinalda e a andorinha


A grinalda e a Andorinha


Quem não se casou, que não leia este repente.
Pode ser duro acreditar, mas é o que jaz aqui latente.
Andorinha voa alto e de cima, ainda contente,
avista coisa branca,muito alva e de repente.

Pousa leve e suave,
sobre algo que não conhece.
Desfaz logo o entrave,
e o macio reconhece.

Há de ser coisa boa,
qual o céu em que voa.
Mal sabe a andorinha
que o vale não perdoa.

Encanta a andorinha a danada da grinalda,
esquecida pelo par, após cerimônia religiosa.
Foi jogada a Deus-dará, na certeza milagrosa.
Na espera de um futuro feito total mar de rosa.

Andorinha não entende
o mal que padece a gente.
Pecados mortais, ilusões,
quebradas em noites quentes.

É grinalda , andorinha...
Não é grama o que te chama.
Do vale das sombras tristes,
é  dor  maldita que te clama!

Voe alto,minha amada -
andorinha  que liberta,
Vá seguindo teu caminho,
aquele que o coração desperta.

 Voe, voe e não volte mais...
A grinalda em que pousastes,
não te aqueces jamais.

Não aquece tuas asas,
Não te alegra o coração.
Não revela a maciez
em que um dia puseram a mão.

Voe linda, vá- te embora!
Ganhe o ar que te chama!
E voe  sem demora...

Como pedido, está feito:
andorinha bateu asas,
de seu jeito brejeiro.
Foi parar em outros campos,
procurando seu padroeiro.

A grinalda jaz sozinha,
no campo verde e macio.
Quem sabe um dia outra andorinha,
em vendo tal campo desolado,
há de querer pousar também, arruinado,
no coração caminheiro!