domingo, 25 de janeiro de 2015

No dia em que eu morri





No dia em que eu morri, lembrei-me de minha vida em um instante:
lugares que fui e me perdi;
lugares que andei como uma infante.
No dia em que eu morri, refiz minha jornada:
me vi sozinha e acabrunhada
no canto da vida em que vivi.
No dia em que eu morri, lembrei-me de muitos:
 alguns amigos, outros nem tanto,
e planos que chorei aos prantos.
No dia em que eu morri me fiz de alegre:
todos ao redor de mim choravam
e muitos outros, lamentavam.
No dia em que eu morri, sorri bastante.
Nos braços de Jesus nunca distante,
refiz meu tempo na Terra, interessante.
No dia em que eu morri, assim pensei:
fiz muito e tudo por amor
e quase sempre agradei.
No dia em que eu morri, me fiz saudosa.
De um tempo que se foi e não volta atrás.
Milhares de lágrimas chorei,
e que agora não choro mais...
No dia em que eu morri, agradeci.
Por todos na minha vida , eterneci.
Fiz de Cristo minha morada,
e , nela voltei a caminhar.
Em sua luz, feliz a festejar
por minha volta a triunfar.
No dia em que eu morri eu tive pena,
daqueles que não souberam me entender.
E para estes, deixo minha palavra final:
amei meus irmãos e não me arrependo,
cantei suas lágrimas e compreendo
que nem todos são iguais.
Uns quiseram meu amor e companhia,
outros se furtaram da alegria,
de me ver sorrindo todo o dia,
sob o céu azul e ensolarado
que o Cristo nos dá , encabulado,
para que possamos ao outro ofertar:
sem ganância, maldade ou inveja,
o que Ele queria era somente
que adentrássemos em sua igreja
para que quando partíssemos, natural fosse...
Sorrir, amar e ser amado,
sempre com a alma tranquila e abençoada,
sem marcas ou dores calejadas,
de uma vida comum embora atribulada,
mas com a leveza infantil daquele que sorri.
No dia em que eu morri,
eu, simplesmente parti...

sábado, 24 de janeiro de 2015

Pássaro Negro






Quando teus olhos cruzaram os meus,
não havia rancor nem piedade.
Havia um querer-sem-querer sem crueldade
que só meu coração entendeu...

Quando tua boca imaginária encostou na minha, 
despi-me da tal famosa sanidade
que me acompanha , ilusória,  sem maldade,
que só meu corpo acolheu...

Quando teu adeus chegou mansinho...
sem tortura, nem reflexão...
avistei o abismo em que me encontro:
voar tal pássaro negro ao teu reencontro,
custaria nada menos que teu abandono...

Quando te vi, no alto e singelo...
a voar, sem destino ou flagelo,
trouxe-me o chão, outrora verde e firme,
na figura que me afaga o coração...
tuas penas negras furtaram meu sorriso 
e me deixaram no chão em que congelo...

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Andorinha

A grinalda e a andorinha


A grinalda e a Andorinha


Quem não se casou, que não leia este repente.
Pode ser duro acreditar, mas é o que jaz aqui latente.
Andorinha voa alto e de cima, ainda contente,
avista coisa branca,muito alva e de repente.

Pousa leve e suave,
sobre algo que não conhece.
Desfaz logo o entrave,
e o macio reconhece.

Há de ser coisa boa,
qual o céu em que voa.
Mal sabe a andorinha
que o vale não perdoa.

Encanta a andorinha a danada da grinalda,
esquecida pelo par, após cerimônia religiosa.
Foi jogada a Deus-dará, na certeza milagrosa.
Na espera de um futuro feito total mar de rosa.

Andorinha não entende
o mal que padece a gente.
Pecados mortais, ilusões,
quebradas em noites quentes.

É grinalda , andorinha...
Não é grama o que te chama.
Do vale das sombras tristes,
é  dor  maldita que te clama!

Voe alto,minha amada -
andorinha  que liberta,
Vá seguindo teu caminho,
aquele que o coração desperta.

 Voe, voe e não volte mais...
A grinalda em que pousastes,
não te aqueces jamais.

Não aquece tuas asas,
Não te alegra o coração.
Não revela a maciez
em que um dia puseram a mão.

Voe linda, vá- te embora!
Ganhe o ar que te chama!
E voe  sem demora...

Como pedido, está feito:
andorinha bateu asas,
de seu jeito brejeiro.
Foi parar em outros campos,
procurando seu padroeiro.

A grinalda jaz sozinha,
no campo verde e macio.
Quem sabe um dia outra andorinha,
em vendo tal campo desolado,
há de querer pousar também, arruinado,
no coração caminheiro!

Minhas Vestes

Ao povo, vos digo agora:
as vestes rasgadas e rotas,
que tanto reclamam de mim,
foram-me entregues outrora.

Não me aborreço com disse-me-disse,
que tais vestes revelam.
Meu caráter é mais singelo,
que a seda rota devora.

Meu caminho é de luz,
embora as vestes não o sejam.
Cristo morreu na cruz,
amando aquele que não o deseja.

Portanto, larguem as vestes de hoje
que meu corpo retém.
Sem elas caminho ao lado
de minha cruz e mais ninguém! 

Prosa

Prosa




Prosa rica,
de outras vidas,
vida seca,
planos mil.
Sonho inacabado,
mas sempre gentil.


Lapso de tempo -
sem tempo-,
nem para lembrar.

Surpresa agradável,
hora silenciosa,
guarda mensagem,
por viajar.

Silêncio do amante,
lua no céu.
Aspira cuidados
com febre de mel.


Sonha o recado,
desajeitado,
mandando mensagem,
para decifrar.

Resta a coragem,
tomar a coragem,
meio sem vontade,
 ao mar...pular.

Olhar

Olhar



Diante do infinito de teus olhos,
contemplo tua alma singela, que,
à procura de um caminho
se perde, nas incertezas da ruela.

Do infinito de teus olhos,
tua alma, ainda que levemente revelada,
desnuda e insegura retrata,
a incerteza do carinho que te espera.

Diante do infinito de teus olhos,
relembro a infância sofrida,
das dores e angústia vividas,
diante do infinito de teus olhos...

Hiato

Hiato





Aproveite bem  sua existência, 
Pois bem cedo irá partir no trem.
A estação antes colorida,
Agora jaz, enfraquecida.

Aproveite bem sua companhia,
Ria, tome sorvetes, ande na praça.
A amargura da solidão logo lhe desgraça
E a mão dantes terna , encarcaça.

Vá. Aproveite bem a companhia,
Do filho querido em plena alegria,
Pois o momento da despedida
logo logo te abraça.

O trem tem hora , não demora.
Passa rápido pela estação.
Leva consigo a lembrança mais feliz
Apunhalando seu coração.

Suas palavras já não soam bem,
Seus conselhos, entregues ao desdém.
Sua ajuda não mais necessária,
Desfaz-se melosa, na sua couraça.

Vá. Aproveite bem a companhia,
Daquele que um dia sorriu para ti.
Da janela do trem parte em retirada
Levando consigo a doce alvorada.

Aconchegue -se  no triste banco da praça,
Lembrando momentos de cumplicidade
Que jaz em breve suspiro seu.
Arruma sua roupa, vista-se taciturno
Ajeite o chapéu de sua alma
E receba o eterno apogeu.

O filho querido parte em desalinho
Levando consigo parte de seu sonho
Palavras ditas e longos desenganos
Truncados em linhas de metáforas perdidas
Alcançam agora trilhas feridas.

Vá. Aproveite bem e se refaça.
Um dia há de voltar pedindo sua graça,
Querendo seu amor que ainda na praça
Reza pela alma que tanto lhe enlaça. 

Vá. Acalma o coração.
Sente-se no banco e refaça a oração, 
Pois um dia, ainda que velho e enferrujado de todo,
Mesmo que sirva só de consolo tardio
A lembrança do filho esguio
Te encontra com o amor gentio.
Vá. Sorria. 
O trem retorna em breve e com alegria:
O filho querido ao seu retorna
Trazendo consigo substantivadas histórias 
Que você um dia ensinou.

Beijar-lhe-á as mãos
E com grande sentimento e redenção
Seus olhinhos acinzentados mirarão
E uma lágrima sentida irá brotar.

Verás então, que o nada e o vão
Meros hiatos em atenção
Perderam-se na luz da transformação
Refazendo a caminhada em profusão...